Importar Médicos!
Miréia Borges
A polêmica que estamos lendo nessas últimas semanas de importar médicos de Cuba, me revolta e me deixa feliz.
Me revolta porque temos faculdades de Medicina formando profissionais as pencas, o que nos deixa pensando o sentido que isso faz para nós pais que temos que apostar financeiramente para a formação dessa turma nova que está tentando um lugar ao sol no campo profissional?
Me revolta por nossos profissionais Médicos ganharem tão pouco que não podem nem se sustentar dignamente depois de gastar tanto na sua formação. Não podem se aprimorar para se atualizar. Mandá-los para i interior é uma excelente opção se eles pudessem viver condignamente, montando uma casa, uma família e podendo se sentir satisfeito e tranquilo nessa nova vida que apostou depois de ter vivido anos a fio na cidade grande para sua formação.
Todas as cidades precisam de Médicos para se sentirem seguros em relação a sua saúde e bem estar, afinal “esses” profissionais SALVAM nossas vidas, ou tentam SALVÁ-LAS quando possível.
Mas em contra-partida, me sinto feliz com esse alarde todo, porque temos Médicos PÉSSIMOS, que estão largados nos hospitais da capital e nos consultórios fazendo barbaridades, dando diagnósticos errados, atendendo como se as pessoas fossem gado passando pelo brete. E eles (profissionais que tiveram a formação de salvar), ali sentados diagnosticando o paciente sem ao menos olhá-lo nos olhos ou tentar saber mais sobre o porque de sua estada ali. Nisso me sinte feliz, pois mostra que se não se mexerem, terão como concorrentes, médicos de fora para suprir o que ele teria que suprir na sua comunidade conforme seu juramento na hora de sua formação como profissional da saúde, quer dizer, da VIDA.
Resumindo minha opinião, devemos ser contra a importação de profissionais Médicos e remunerar adequadamente os nossos profissionais, para que eles se sintam seguros que valeu a pena apostar suas horas de estudo, suas horas que poderiam estar se divertindo e estavam estudando madrugadas a dentro. E ainda , nós como pacientes e população devemos cobrar que os profissionais que estão aqui, nos atendam dignamente e se façam valer do titulo que estampam na sua vida, a de MÉDICO.
Coloco aqui o Juramento de Hipócrates revisto e pelo Dr. Drauzio Varella:
O juramento de Hipócrates
Drauzio Varella
O exercício da medicina por mais de 30 anos me concede a liberdade de aconselhar os médicos mais jovens, mesmo consciente da péssima reputação de que os conselhos gratuitos gozam. É que o passar dos anos desperta nos mais velhos o desejo compulsivo de recomendar aos que ensaiam os primeiros passos que sejam mais espertos e evitem os erros que a ingenuidade nos fez cometer.
Está na hora de acabar com o ritual do juramento de Hipócrates nas cerimônias de formatura. Para que manter essa tradição? Os advogados, por acaso, juram que defenderão a Justiça? Engenheiros e arquitetos precisam jurar construir casas que não caiam?
O juramento de Hipócrates está tão antiquado que soa ridículo ouvir jovens recém-formados repetirem-no feito papagaios. Que me desculpem os tradicionalistas, mas faz sentido jurar por Apolo, Asclépios, Higeia e Panaceia não fazer sexo com escravos quando entramos na casa de nossos pacientes? Ou não usar o bisturi, mesmo em casos de cálculos nos rins? Ou prometer ensinar nossa profissão gratuitamente aos filhos de nossos professores, como Hipócrates preconizava? Por que não estender esse privilégio a todos os que estiverem dispostos a estudar? Existe visão mais corporativista?
Embora o juramento contenha intenções filosóficas louváveis a respeito da ética no relacionamento com as pessoas que nos procuram em momentos de fragilidade física e psicológica, convenhamos que a visão social do pai da medicina deixava muito a desejar. Ele era médico dos cidadãos gregos e da aristocracia da vizinhança atraída por sua fama merecida; se alimentava alguma simpatia pelo contingente de escravos que constituía a maior parte da população da Grécia naquele tempo, soube disfarçá-la em seus escritos.
Sem desmerecer o valor científico de Hipócrates, observador de raro talento, que fugiu das explicações religiosas e sobrenaturais, deixou descrições precisas de enfermidades desconhecidas na época e abriu caminho para a medicina baseada em evidências, repetir o juramento escrito por ele sem fazer menção ao papel do médico na preservação da saúde e na prevenção de doenças na comunidade é fazer vistas grossas à responsabilidade social inerente à profissão.
Por outro lado, aos olhos da sociedade, a mera existência de um juramento solene dá a impressão de que somos sacerdotes e de que devemos dedicação total aos que nos procuram, sem manifestarmos preocupação com aspectos materiais como as condições de trabalho ou a remuneração pelos serviços prestados, para a felicidade de tantos empresários gananciosos.
Por causa desse pretenso sacerdócio, os médicos se submetem ao absurdo medieval dos plantões de 24 horas, seguidos por mais 12 horas de trabalho continuado no dia seguinte, em claro desprezo à própria saúde e colocando em risco a dos doentes atendidos nesses momentos de cansaço extremo. Outros podem passar por isso uma vez ou outra, mas nunca sistematicamente, todas as semanas, contrariando o mais elementar dos direitos trabalhistas: o de dormir.
O que faz da medicina uma profissão respeitável não são as noites em claro nem o conteúdo do que juramos uma vez na vida, muito menos a aparência sacerdotal, mas o compromisso diário com os doentes que nos procuram e com a promoção de medidas para melhorar a saúde das comunidades em que atuamos.
Para cumprir o que a sociedade espera de nós, é preciso lutar por salários dignos, porque hoje é humanamente impossível ser bom médico sem assinar revistas especializadas, ter acesso à internet, frequentar congressos e estar alfabetizado em inglês, língua oficial das publicações científicas. Num campo em que novos conhecimentos são produzidos em velocidade vertiginosa, os esforços para acompanhá-los devem fazer parte de um projeto permanente. Medicina não é profissão para aqueles que têm preguiça de estudar.
Apesar de absolutamente necessário, o domínio da técnica não basta. O exercício da medicina envolve a arte de ouvir as pessoas, de observá-las, de examiná-las, interpretar-lhes as palavras e de discutir com elas as opções mais adequadas. O tempo dos que impunham suas condutas sem dar explicações, em receituários cheios de garranchos, já passou e não voltará.
Talvez a aquisição mais importante da maturidade profissional seja a consciência de que a falta de tempo não serve de desculpa para deixarmos de escutar a história que os doentes contam. De fato, muitos deles se perdem com informações irrelevantes, embaralham queixas, sintomas e, se lhes perguntamos quando surgiu a dor nas costas, respondem que foi no casamento da sobrinha. Nesses casos, o médico competente é capaz de assumir com delicadeza o comando do interrogatório de forma a torná-lo objetivo e exeqüível num tempo razoável.
Nessa área, sim, temos muito a aprender com os velhos mestres. Hipócrates acreditava que a arte da medicina está em observar. Dizia que a fama de um médico depende mais de sua capacidade de fazer prognósticos do que de fazer diagnósticos. Queria ensinar que ao paciente interessa mais saber o que lhe acontecerá nos dias seguintes do que o nome de sua doença. Explicar claramente a natureza da enfermidade e como agir para enfrentá-la alivia a angústia de estar doente e aumenta a probabilidade de adesão ao tratamento.
Muitos procuram nossa profissão imbuídos do desejo altruístico de salvar vidas. Nesse caso, encontrariam mais realização no Corpo de Bombeiros, porque a lista de doenças para as quais não existe cura é interminável. Curar é finalidade secundária da medicina, se tanto; o objetivo fundamental de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.

















